– O que você estava fazendo ali?
– Agora não, disse ela submersa em lágrimas. Acho que não vou conseguir falar com você hoje.
– Vamos lá para casa, que a gente conversa melhor.
– Não, na sua casa, não. Vamos naquela praça perto da sua casa. Uma tonelada de silêncio entrou pela janela do carro. Meu Deus, será que é o que estou pensando, pensei.
Estacionei na rua que fica entre as duas praças. Eram quase oito da noite e só algumas pessoas faziam exercícios àquela hora. Desliguei o motor, olhei dentro dos olhos dela buscando uma resposta para aquilo que já sabia, e perguntei mais uma vez:
– O que você estava fazendo ali? Você estava na casa do Alex?
Foi aí que ela sacou a arma de dentro do casaco e disparou.
– Eu estou trabalhando lá. A produtora é lá. O lugar que ele trabalhava fechou, etc.
A dor é o que ficou na memória da hora do tiro, o resto foram só essas palavras. O resto, não consigo lembrar. Fiquei atordoado, era tanto sangue que saía do meu peito que achei que fosse desmaiar, ainda mais eu, que não posso ver uma gota de sangue que passo mal. Ela não me encarava e chorava, chorava, e chorava, e tentava explicar o que não dava para ser explicado. E eu, atormentado de dor, só procurava uma resposta para aquilo que eu já sabia.
– Você gosta dele?
– Não. A gente não transa, não faz nada. A gente está só se ajudando.
Será que eu posso acreditar no que ela está me dizendo?, pensei, enquanto da minha boca saíam outras palavras.
– Por que não me disse isso antes?
– Não sei.
Não conseguia ter raiva ou qualquer outro tipo de sentimento ruim. A única coisa que disse foi que nada daquilo era necessário. Não tinha porque ter me escondido tudo por todo esse tempo. Justo de mim, que sempre joguei limpo com ela. Não era justo. Mas o que eu podia fazer? Gritar, armar o maior barraco, dizer para ela sumir dali que eu queria morrer sozinho? Não, esse não é meu
estilo. A única coisa que disse, antes de morrer, foi:
– Ontem, quando você não apareceu, fiquei pensando o que era o amor. Qual era a diferença entre gostar de alguém, estar apaixonado e amar profundamente uma pessoa. Juntei tudo que estava guardado na memória, somei, multipliquei, subtrai e só não tirei a raiz quadrada da questão por que sempre fui péssimo em matemática. Mas o que importa é que descobri que adoro seu sorriso, o jeito que você anda quando está com pressa, suas roupas, a cara que você faz quando está transando, como você passa a mão no meu peito, seu papo, seu astral, de todos os barulhinhos que saem de dentro de você quando está com tesão, da sua voz.
Queria dizer mais. Só não falei porque morri antes de gritar:eu te amo.